Mundo cão
09 fev 2012 13 Comentários
em Bastidores
Mais de seis mil animais chegaram em um ano. Menos de 800 foram adotados. E uma média dilacerante de 476 cães e gatos sacrificados todos os meses. Quando eu soube dos números achei estranho que falassem disso com tanta naturalidade.
Desci do carro com sangue nos olhos.
Mandaram a nossa equipe esperar pelo veterinário na sala de Controle de Animais. Várias pessoas entraram e saíram. A todas, perguntei se era o Dr.Felipe. Quando ele chegou, passou por nós e se sentou à minha frente, mudo. Sem nem um bom dia. Olhar baixo.
_ Bom dia. Você é o veterinário?
_ Isso.
_ Viemos fazer a reportagem sobre os animais. Onde eles estão?
Uma respiração impaciente. Ainda sem olhar pra mim:
_ Estão faxinando agora o canil e o gatil. Tem que esperar.
_ Quanto tempo demora?
Levantou os olhos devagar. Franziu o cenho. Afirmou como dá um cheque mate:
_ Quarenta e cinco minutos. Cronometrados.
Era só o que eu tinha. Era tudo o que eu tinha. O cinegrafista sentiu o peso do meu silêncio.
_ Não tem problema, eu faço só imagens fechadas. Pode confiar.
O primeiro pavilhão foi um afago na alma. Pouco mais de trinta cães, todos saudáveis, à espera de adoção. Os olhos expressivos, os latidos ininterruptos, as patinhas que vazavam a grade, em êxtase. Só faltavam falar. Mas Felipe garantiu que ficavam ali por no máximo dois meses. Pouco, mas a dúvida estimula a ansiedade.
Um carinho de joelhos, grudada no ferro enferrujado e a voz fina de quem fala com criança. Entre as minhas mãos, as orelhas compridas que se estapeavam no ar.
Um preto desbotado, com pêlos ralos. Outro malhado maior, focinho longo, cheio de carrapatos. Um luxo!
Mas o mimo, em vez de sossego, era combustível. O latido estridente já quase não saía. Me perdi nos sorrisos caninos.
O assistente deu uma tosse seca, de advertência, como quem queria me chamar. Esperei uma bronca do veterinário. Mas veio um incentivo.
_ Nenhuma repórter aqui havia encostado nesses animais antes. Você está de parabéns!
E Felipe me deu o primeiro sorriso.
Na entrevista, o tom sisudo se desmanchou em raiva pelo abandono cruel que testemunhava todos os dias. Pelos depoimentos secos de quem admitia que a cerca elétrica deixava o cão sem serventia. Todos os dias. Dezenas de casos. Há anos. Quem sorriria de graça ali?
No pavilhão do lado ficavam os cães infectados. Leishmaniose, leptospirose, raiva, sarna, doença do carrapato. Qualquer diagnóstico era fatal. Todos seriam sacrificados, mais cedo ou mais tarde. O Centro não funciona como clínica veterinária. Vida e morte, separadas por uma parede.
Mas o pior ainda viria.
O gatil estava mais limpo do que eu imaginava, mesmo com a faxina pela metade. Gato, mesmo de rua, tem cara de bicho de madame. Assépticos, quase burgueses. Mas o comportamento denunciava que a pompa era pobre. Filhotes escalavam as grades. Unhas afiadas cravadas na gaiola. E um miado constante, agudo, como súplica pela liberdade. Naquele dia eram pouco mais de quarenta.
Cada dia de espera é menos um dia de tolerância. O começo do fim.
A adoção é a única saída. Ali, uma gaiola lotada é a condenação para a eutanásia. Sacrificam animais saudáveis em nome dos outros que chegam diariamente.
A morte democrática.
Para todos.
_ Enquanto trazem um, dois, três cães por semana, os gatos chegam aos montes. Há alguns dias uma senhora trouxe uma caixa com mais de quinze.
Felipe disse como quem pedia desculpas, de mãos atadas. Ele já confiava em mim.
Aquela manhã já era a última para dois deles. Um sarnento, filhote, de pêlos ralos. Outro branco, de olhos azuis e o focinho consumido pelo câncer. Ele tremia a patinha ininterruptamente, piscava os olhos devagar.
A morte pela veia.
Em dois segundos.
Sob uma mesa no quarto dos fundos.
Felipe não me deixou sequer fazer imagens da placa “Sala de Eutanásia”.
_ Tem certas coisas que é melhor nem imaginar. Nem eu me acostumo.
A postura ríspida era um escudo para a realidade que ele vivenciava. Suportar o peso da expectativa de salvar milhares de cães e gatos abandonados e ver o fardo cair sob os pés todos os dias, a cada injeção letal. Impotente. Sem saída. Ele se formou em nome do amor pelos animais, mas tem que matá-los em todo fim de manhã.
Sob os ombros dele, a insensibilidade e a covardia de quem trata bicho como objeto.
É como quem joga lixo no chão porque sabe que sempre terá alguém pra limpar.
Na saída, conheci a tímida Andreza, flagrada enquanto prendia uma fitinha em torno do pescoço da mais nova companhia. A morte da gatinha deixou um espaço difícil de preencher. Dizem mesmo que só se cura um amor com outro.
Deixei o Centro de Zoonoses ainda com esperança. Eram pequenas gotas insistindo em contrariar a maré.
Mas o barco das fadas passou rápido.
Um tapa na minha cara na madrugada seguinte.
Eu ia de van a caminho da TV como todos os dias. Corpo anesteasiado, poupando energia para mais um batente. Olhos inchados, mas atentos o suficiente pra ver.
Na curva era só uma sombra. Em movimento. Desceu o meio fio. Eu vi. Com os ombros baixos, cabeça apoiada nos bancos. E eu vi. Não imaginei que o motorista não viria.
O que ouvi em seguida ainda ecoa. Uma interjeição alta, de susto. E um sussuro doído, rendido.
Olhei pra trás, instintivamente.
Meu maior arrependimento.
Ele agonizava no asfalto gelado, no escuro. Eu via a dor rasgar a pele, a cada segundo mais distante. Minha indignação não me permitiu reagir. Olhos arregalados, um careta de ódio e a letargia que me restava, a medida que a van se distanciava.
O motorista olhou brevemente no retrovisor, estalou os lábios e deu de ombros. Um lamento ínfimo para uma alma pequena.
Minha ponta de esperança em novas marés esvaeceu em uma freada.
Naquele dia olhei a todos com o mesmo rosto sombrio de Felipe.
fev 12, 2012 @ 20:54:20
Texto de sensibilidade total! Terminei a leitura e tive que ‘organizar’ meus pensamentos e minhas emoções. Sou apaixonada pelos animais. Quando criança pensava em ser veterinária para cuidar de “todos eles”. Era meu sonho aos 5 anos de idade. E hoje vejo essa realidade… me deixa tão triste.
“Ele se formou em nome do amor pelos animais, mas tem que matá-los em todo fim de manhã.”
Frase profunda. Me doeu na alma… me doeu no coração.
Esse texto foi diferente dos outros, particularmente pra mim. Comecei a leitura e estava sendo teletransportada como todos os outros. Mas esse… eu tentei não ir. Hum! Como se isso fosse possível!
Parabéns pelo texto! Parabéns por nos presentear com ele e compartilhar conosco. O primeiro de 2012 e você arrasou, como sempre!
Parabéns, Pat!
fev 12, 2012 @ 13:38:08
Nossa falta de humanidade passa pela falta de amor e respeito a vida dos animais. Me partiu o coraçao a estoria desses bichinhos no “corredor da morte”…e esse caozinho acidentado,tera agonizado ate a morte? Meu Deus se nao for nos, quem sera pelos animais?
fev 11, 2012 @ 13:30:32
Poxa, um dos melhores textos que ja li… #VaiEscreverBem assim na redação do Enem Rapaz… KKK. Lindo Desabafo, isso sim é jornalismo, não apenas a preocupação em furos de reportagem e sim a preocupação com quem tem sentimento :) #Parabens
fev 11, 2012 @ 11:46:46
Ola Patrícia. Nesse seu novo texto você indiretamente nos faz uma pergunta que não quer calar…o que estamos fazendo com estes animais? lembra o holocausto humano da 2a guerra quando milhares de pessoas esperavam em filas enormes serem sacrificadas. Lá os principais alvos para serem mortos eram as pessoas mais velhas, doentes, deficientes físicos, pessoas que não serviam para o trabalho escravo pesado imposto pelos nazistas. E nesses centros de zoonoses da vida? temos lá os gatinhos que não pediram pra vir ao mundo e tão cedo já estão na fila da morte. Todos os rejeitados são levados a morte…quando na rua vivem a margem abandonados para morrerem devagarzinho, quando nesses centros, vão para esperança da adoção ou para o sacrifício. Acho que a todos nós você fez pensar e refletir sobre o valor da vida: a desses bichinhos é mesmo tão menos importante que a nossa?
fev 10, 2012 @ 19:04:52
Já havia passado da hora de te ter de volta. Seus posts, como sempre trazem sua experiência ao nosso encontro, levando-nos sempre a refletir sobre o que é importante, o que é questionável, o que está “escondido” por aí. Não é a primeira vez que você me leva junto com a leitura. É como se eu conseguisse vivenciar toda aquela experiência, mesmo sem estar lá. Parabéns! Você continua sendo a minha inspiração…Quero ser assim… bem assim… como você, quando eu crescer.
Beijo, Pat.
fev 10, 2012 @ 03:21:59
Não poderia deixar de comentar esse texto tão cheio de sensibilidade e amor. Nossa, como somos cruéis com os animais!…Patricia seu texto é uma denuncia e um apelo a nossa consciência com relação ao o que estamos fazendo com os bichinhos abandonados. Será mesmo que não podemos fazer nada?…caramba, fiquei chocado, nao sabia que funcionava assim a zoonose…e que pena dos gatinhos…poxa!…preciso fazer alguma coisa, não dá para saber disso tudo e ficar de braços cruzados…
fev 10, 2012 @ 03:17:24
Estou passada! seu texto dessa vez ficou mais impactante que os anteriores. Talvez porque fale de inocentes animais vítimas do egoísmo e da insensibilidade humana. Como me tocou…me fez refletir sobre a responsabilidade que temos com essas criaturinhas indefesas…desculpe, mas me fez chorar de emoção.
fev 09, 2012 @ 23:22:51
Nossa…! O post é incrível, o desabafo é realente emocionante e sei como foi difícil se ver ali no meio daquela barbárie – nos dois casos – e não poder fazer nada. É terrível!
*Parabéns :|
fev 09, 2012 @ 21:44:07
Já diria Bell Marques… “Demorou, mas chegou a hora”
A hora de voltar a Apreciar, Admirar, Amar cada letra, cada palavra publicada nesse blog.
É uma satisfação imensa poder desfrutar desse espaço onde mergulhamos de cabeça em cada uma das suas várias Peripécias Jornalísticas, nadamos mar a dentro, com braçadas largas por todo esse oceano de sentimentos relatados esplendorosamente em Um Minuto e Meio!
Sua sensibilidade é algo impressionante! Difícil não se emocionar tanto com a matéria exibida no jornal, quanto com a maneira que a mesma é destrinchada nesse espaço. Esse Pavilhão de emoções transmitidas através de um trabalho Árduo, porém Magnífico realizado por alguém que é tão jovem, mas já tem uma vasta visão do mundo real em que vivemos.
Nesse ritmo, logo logo teremos dois livros!
O seu, com todas essas histórias, todos esses acontecimentos que marcaram, marcam e continuarão marcando sua vida e a vida de todos que te acompanham e te admiram…E o meu, com todos os comentários, os agradecimentos e os elogios a respeito de uma tal Patricia Rocha!!!
Parabéns!!!
fev 09, 2012 @ 15:47:08
A sua matéria mostrou que o Centro de Zoonoses não é um lugar de tratamento e nem de abrigo para um animal abandonado. É um lugar de exterminação. E esse seu post diz exatamente o que se encontra num lugar assim: a barbárie humana.
Não, Patrícia, esse mundo não é cão. Ele é desumano. Como bem disse Regina Schöpke, não é nossa animalidade que precisa ser extirpada; é nossa falsa humanidade ( vide a página http://www.anda.jor.br/29/01/2012/a-crueldade-humana-uma-primeira-reflexao ).
Parabéns por ser uma pessoa de tantas belezas.
fev 09, 2012 @ 12:05:49
Parabéééééns Titaaa! Eu li e reli… 0: Pelo que acabei de ler, garota você não perdeu o jeito!!!!! De maneira alguma! Triste realidade que vai na alma de nós seres humanos que somos apaixonados por animais! Que muitas vezes diante de situações deprimentes ficamos sem saber o que fazer! Seu texto está emocionante! Tenho plena certeza dá sua sinceridade, delicadeza, indignação, tristeza… ao postar um poster como esse que chega dá um ar de alegria com sua proximidade com os bichinhos, com tanto amor, carinho e um grande aperto no coração na hora da saída! O mundo necessita de pessoas assim como você, pessoa humilde e caridosa! Já não tenho palavras para te falar o quanto está de Parabéns! Belissímo poster!!! Ahh, sua Danada me deixou sem palavras!
Beijos e abraços meigo da tua amigaaaa!
fev 09, 2012 @ 11:41:56
Putzzz, que desabafo… No momento estou sem palavras para comentar algo!!!
fev 09, 2012 @ 11:39:29
Pattt,,,minha liinda q emoção parabéns viu quanta inspiração pela primeira veez eu mesenti na sua pele,,,chorei por qerer ajudar esses pobrizinhooss e não poder.Mas Deus há de cuidar desses ggatiinhhos e cacchorros… :’(
PARABBÉNS BY* Dêezah